Se apenas 114 mil pessoas habitassem Brasília, existiria uma pracinha com pontes barrocas – arcanjos rechonchudos e todas aquelas formas orgânicas – esverdeadas; existiriam duas pracinhas: à beira do Paranoá, à beira do Darcy Ribeiro e pontes que transpassam um riacho fundo que corre sobre o cascalho e encharca a terra seca e avermelhada. Corre, corre, corre.
Se andando no omnibus seu livro caísse aos pés de uma mulher cuja filha tem Síndrome de Pernas Inquietas, você hesitaria se levantar do assento para pegar o livro que se esparramava pelo chão. A mulher se debate, as pernas da filha são convulsivas, ela sapateia no ar e você pode levar um chute no rosto se chegar muito perto. Ainda assim resolve romper o silêncio sepulcral que é a inexistência de uma conversa entre você e a mulher: "pega meu livro, por favor?".
Se no meio da noite você fosse acordado pelo ruído eterno que é uma forma desconhecida descendo as escadas para um encontro indesejado, acariciaria o cachorro que estava dormindo aos seus pés. O barulho sorrateiro, contínuo, arrastado te enlouquecendo: um punhal na primeira gaveta do seu criado-mudo.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Hipnosessão #28
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Uccelli Ordine del Nord
Dentre tantos e inúmeros, os únicos que restam são os rostos que o espelho se recusa a refletir. São sombras, não rostos; são espectros, não pessoas. Acordam incertos de que se querem viver ou morrer todos os dias porque, no fim, não faz diferença alguma. Somos nós que andamos na rua com foices sobre os ombros, não-vivendo na iminência da mortalha do existir. Somos sombras, não rostos; somos espectros, não pessoas.
O nó no peito. O perpétuo nó no peito: ele cresce, cresce, cresce e pulsa com a força que não temos para levantar da cama. Temos um nó no peito, não um coração. Um anjo negro que ascende e envolve nossos pescoços, sussura-nos juras de sossego eterno entre contrações e distensões e o universo se expandiu de uma vez: suas galáxias ofuscantes e os buracos negros que tentam nos tragar.
(Se tivéssemos recebido um soco no nariz, teria doído menos.
Se tivéssemos recebido um soco no nariz, não teríamos nos eviscerado para perceber que temos em nós mais do que sangue, ossos e órgãos.
O nó no peito. O perpétuo nó no peito: ele cresce, cresce, cresce e pulsa com a força que não temos para levantar da cama. Temos um nó no peito, não um coração. Um anjo negro que ascende e envolve nossos pescoços, sussura-nos juras de sossego eterno entre contrações e distensões e o universo se expandiu de uma vez: suas galáxias ofuscantes e os buracos negros que tentam nos tragar.
(Se tivéssemos recebido um soco no nariz, teria doído menos.
Se tivéssemos recebido um soco no nariz, não teríamos nos eviscerado para perceber que temos em nós mais do que sangue, ossos e órgãos.
Se tivéssemos recebido um soco no nariz, não teríamos devorado um frasco de rivotril.)
O anjo negro sabe que sentir-se vivo na plenitude do existir é sofrer: a dor é o fio condutor de toda a vida, que passa pelo âmago do sentimento. A catarse da tragédia tem a mira certeira. O anjo negro sabe que escapamos às incumbências do destino porque estamos destinados ao erro de andar sobre a Terra por cinco continentes e sete mares, cobertos de sono e amorfamente talhados. Somos tantos porque não somos nenhum.
Somos tristes, é só o que somos.
quarta-feira, 2 de março de 2011
"Oh, a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.
A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.
Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.
A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.
Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora."
G. Trakl - Aos Emudecidos
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Boneca Russa
Abre-te cada vez mais
e cada vez mais
vejo cada vez
menos
como uma boneca russa reversa
o âmago
cada vez mais
ínfimo
uma redoma de vidro
anuviada
calabouço de ar
arcabouço de cristal
uma gota de chuva
no sepulcro da epopéia
essa estória não é nada
além de um folhetim.
"I made a fire; being tired
Of the white fists of old
Letters and their death rattle
When I came too close to the wastebasket.
(...)
This fire may lick and fawn, but it is merciless:
A glass case
My fingers would enter although
They melt and sag, they are told
Do not touch.
And here is an end to the writing,
The spry hooks that bend and cringe, and the smiles,
the smiles.
And at least it will be a good place now, the attic."
S. Plath - Burning the Letters, 1962
Of the white fists of old
Letters and their death rattle
When I came too close to the wastebasket.
(...)
This fire may lick and fawn, but it is merciless:
A glass case
My fingers would enter although
They melt and sag, they are told
Do not touch.
And here is an end to the writing,
The spry hooks that bend and cringe, and the smiles,
the smiles.
And at least it will be a good place now, the attic."
S. Plath - Burning the Letters, 1962
Alguma digressão
Eu sou nova demais para me sentir tão velha.
Eu sou nova demais para me sentir tão vazia.
Eu sou nova demais para me sentir tão sozinha.
Eu sou nova demais para me sentir tão estúpida.
Eu sou nova demais para me sentir tanto.
Eu sou nova demais para me sentir.
Eu sou nova demais.
A maledicência dos amantes noturnos
Ouvi um grito atormentado ecoando pelas ruas tumultuadas, reverberando nos céus incandescentes, ressoando nos meus ouvidos.
O bar estava cheio e me sentei no balcão. A porta abria vez ou outra e as garrafas tilintavam. Eu me remexia no banco, esperando, palpitando. Ele entrou e dava passos pesados que vibravam no assoalho. Pôs a mão no meu ombro e sussurrou meu nome. “Você cresceu”, ele disse. “Você esteve fora tempo demais”, eu respondi. Ele era lindo, exatamente como eu me lembrava. “Como vai a sua mãe?”, ele pôs a mão sobre a minha e a apertou. “Não falo com ela há alguns anos”.
Escovava meus cabelos molhados. A porta estava entreaberta e uma brisa sutil adentrava meu quarto. A toalha que cobria meu corpo escorregava lentamente. Gotas caíam dos fios escovados e deslizavam no meu colo, deixavam um rastro úmido pelo meu pescoço formando um riacho delicado que passava entre meus seios alvos até se dissiparem no umbigo. A porta estava entreaberta e a brisa foi cortada por ele. A toalha que cobria meu corpo escorregara. Gotas caíam cada vez menos dos fios escovados e mal deslizavam pelos meus seios. Os olhos dele seguiam a rota das gotas. Meus olhos fitavam-no curiosamente. Nossos olhares entrecruzados.
Saímos do bar antes do meio da noite. Não só nos sentíamos como já éramos estranhos. Ele segurava a minha mão. Cruzávamos com prostitutas e boêmios que nos cortejavam cumplicimente; moralmente éramos todos iguais. Eu me agarrei em seu braço e supliquei para que fôssemos para sua casa. “Está vazia, não está?”. Ele esperou anos por mim.
Numa terça outonal ele se foi. Já se esperava que isso acontecesse e quando nossos corpos amanheceram rijos e os olhos marejados, foi a hora. Ela não chorou, nunca chorava e não nos permitia chorar. Pôs a aliança no fundo da gaveta das lembranças, debaixo de todas as cartas e fotografias. Eu não me permiti correr atrás do carro dele ou berrar seu nome. Sentei-me na cadeira de balanço e esperei a fumaça da estrada de terra se dissipar. Fechei as cortinas e me deixei desfalecer.
Ele morava com uma mulher em um apartamento pequeno e elegante. Sentou-me no sofá negro e me ofereceu alguma coisa. Eu via sinais dela nos cantos mais afastados dos cômodos, nas rachaduras da parede pintada precariamente e nas folhas de papel ao meu lado. Eu toquei seu braço levemente e o acariciei. Ele me sentia com desejo e remorso. “Você se lembra de quando íamos à praia? Você se movia junto ao mar com tanta sintonia que eu podia chorar e te olhar o dia todo, todos os dias. Sua pele ficava queimada e eu beijava onde estava mais vermelhinho.” Eu peguei sua mão entre minhas mãos e juntei-a ao meu rosto. “Você esteve fora tempo demais”, eu respondi.
Passaram-se anos sem que eu soubesse dele e nunca mencionávamos seu nome. Não era capaz de esquecê-lo, ela também fingia tê-lo apagado mas abria a gaveta das lembranças e fechava-a molhada de tristeza. Vi-o no rosto de um homem e deitei-me em meio a seus lençóis. Caminhei alguns metros e vi-o em um professor; toquei-lhe os lábios. No dia que achei tê-lo esquecido, ela deixou uma fotografia em meio aos livros que andara lendo. Ele era lindo.
Nunca percebi como urgia ficar perto dele. Não até nos encontrarmos naquele bar. Espera-se de nós que nos amemos, mas não que nos queiramos. Sabíamos que tínhamos sido enlaçados e não podíamos fugir um do outro, do que éramos. As mãos dele iam delineando formas do nascimento, do crescimento e da morte-por-vir. Os cabelos caindo-lhe sobre os olhos, minha cabeça deitada em seu peito, a respiração acelerada e confortante. As rachaduras se intensificavam e maculavam cada vez mais as paredes que se partiam e caíam sobre nós: unidos fisicamente, nos fadamos à maldição eterna, à solidão perene.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Alegoria
O reflexo pela manhã
percorre as paredes do sobrado
projeta imagem turva
onde deveria haver respostas
onde deveria haver lucidez
projeta grosseira ilusão
fere-me.
percorre as paredes do sobrado
projeta imagem turva
onde deveria haver respostas
onde deveria haver lucidez
projeta grosseira ilusão
fere-me.
O Concreto
A tardinha estava quente. Ela andava entre as barracas, observava vegetais, legumes e frutas enquanto discorria sobre o passado, à deriva na dura calçada de concreto. Seus devaneios planavam na brisa quase inexistente naquele poente de verão. Algumas gotas de suor corriam-lhe a testa.
Pensava em sua mãe consumida, consumida pela viuvez que, transformada em loucura, subvertia o zelo que deveria ter pelos filhos. Imaginava se acabaria como ela, temia ser como ela, carregar genes malditos e dar continuidade ao declínio da família.
Suas reflexões esboçavam o contorno delicado de seu único filho, já moço e formado. Ele a sujeitou à solidão, aos dias vazios junto a seu marido, outrora bonito e vivaz, agora murcho e recolhido. Foi abandonada. À sua própria sorte. Estava sujeita às vontades de uma divindade qualquer, nefasta, tão intangível quanto seus desejos, já esquecidos e engavetados.
Foi interrompida por um leve puxão em sua saia. Uma criança franzina, de olhos protuberantes e cabelo ralo pediu alguns centavos. Ela deu uma tangerina. Seu filho gastava áureas tardes comendo tangerinas. Ele puxava sua saia para pedir as frutas, seus dedos imundos da terra remexida do quintal. A nostalgia exalava um cheiro doce e cítrico. Ao dar as costas ao menino e voltar a vagar entre as tendas multicolores, sua tangerina foi atirada na dura calçada de concreto.
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Espraiar
Um momento:
acredite, está pulsando
ninguém te observa,
as cinzas tragadas pelo tufão
os meninos esquecidos
(esquecem seus caminhos)
incompreendem
e ainda assim estão vivos
estão revoltos na lama
permanecem extáticos
(alhures)
não se preocupam
não se lembram
nada do que se viu é diferente
(nada é inédito)
é só o nada.
acredite, está pulsando
ninguém te observa,
as cinzas tragadas pelo tufão
os meninos esquecidos
(esquecem seus caminhos)
incompreendem
e ainda assim estão vivos
estão revoltos na lama
permanecem extáticos
(alhures)
não se preocupam
não se lembram
nada do que se viu é diferente
(nada é inédito)
é só o nada.
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