quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Hipnosessão #28

           Se apenas 114 mil pessoas habitassem Brasília, existiria uma pracinha com pontes barrocas  arcanjos rechonchudos e todas aquelas formas orgânicas  esverdeadas; existiriam duas pracinhas: à beira do Paranoá, à beira do Darcy Ribeiro e pontes que transpassam um riacho fundo que corre sobre o cascalho e encharca a terra seca e avermelhada. Corre, corre, corre.

           Se andando no omnibus seu livro caísse aos pés de uma mulher cuja filha tem Síndrome de Pernas Inquietas, você hesitaria se levantar do assento para pegar o livro que se esparramava pelo chão. A mulher se debate, as pernas da filha são convulsivas, ela sapateia no ar e você pode levar um chute no rosto se chegar muito perto. Ainda assim resolve romper o silêncio sepulcral que é a inexistência de uma conversa entre você e a mulher: "pega meu livro, por favor?".

           Se no meio da noite você fosse acordado pelo ruído eterno que é uma forma desconhecida descendo as escadas para um encontro indesejado, acariciaria o cachorro que estava dormindo aos seus pés. O barulho sorrateiro, contínuo, arrastado te enlouquecendo: um punhal na primeira gaveta do seu criado-mudo.

1 comentários:

  1. A primeira condicional me fez pensar em volutas de concreto sedentas como Tântalo.

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